Liberdade Superficial

"Desde que mundo é mundo se luta pela liberdade, mas ela é sempre destinada à classe que detém poder e riqueza. A liberdade definida pelos de cima só pode ser superficial".

Falarei do que pensei e senti depois de uma conversa com uma garota bem jovem que, assim como eu, se coloca como um livro aberto.

Vou abrir nosso livreto em uma página:

Eu fumava cerca de 15 cigarros por dia, quando bebia minhas 6 garrafas de cerveja, poderia fumar 30 em uma noite. Quando alguém falava qualquer coisa sobre isso, gargalhava e prontamente respondia: mas eu não sou livre para fazer o que quiser? Posso escolher do que morrer. Continuo gargalhando quando me desafiam,  não brinco mais com a ideia de ser livre e a Souza Cruz perdeu uma cliente desejável.



Liberdade, Vida, Internet:

Depois do celular, o empregado continua disponível para o empregador mesmo depois de sair do trabalho. Meu patrão já me pediu para ir trabalhar na folga assim. Disponível sempre. Celular na mão virou um tic: encontro pessoas amigas que não largam o celular (conectado às redes coloridas) para nada. Você está preso. Sempre tem uma foto que é postada durante um encontro, como se a intenção fosse mostrar que está vivendo e não viver o encontro. 


Liberdade sexual?


Estava conversando com uma companheira que tinha um relacionamento amoroso aparentemente feliz. O casal gostava de publicar fotos abraçados, cheios de declarações. Não demorou muito e acabou tudo. Postaram novas fotos, sensualizando seus corpos e se recolocaram disponíveis no mercado de relacionamentos. Ela me disse que para superar um amor, nada como outro em seguida. Não sei ainda o que acho sobre isso. Mas o que será que estamos aprendendo com a ideia da fila anda? Queremos ter relações na vida como num atendimento ao caixa? Bom, todo mundo é livre para exercer sua sexualidade como bem entender...

Liberdade completaMente Solta:


Às vezes a gente se comporta na vida real ou na rede social, de acordo com o que esperam que sejamos. O ideal da mulher com um adjetivo do lado. Atualmente, na minha rede de pessoas próximas, o ideal da mulher vem ao lado de livre. Mas já fiz parte de outros grupos: que valorizam a moça estudiosa, a moça que trabalha muito, a moça sempre alegre... Sou todas elas e nenhuma me resume. E pensando na conversa com esta amiga que terminou o relacionamento:

Sejam quem quiserem ser. Quer postar foto sensual? que seja porque se ama, não porque quer que te desejem, ou para o ex-boy ver. Não precisam ser sempre sexy. Não precisam provar nada para ninguém. Não precisam ser sempre críticas. Não precisam ser sempre nada. Sejam tudo que a vida ensinou a vocês e muito mais. As pessoas que te amam estão ao seu lado, não curtindo a foto de tudo que você faz.

Não precisamos de nenhuma rede para nos sentirmos queridas. Precisamos nos encontrar.

Gosto da ideia de liberdade como "seguir sem medo de errar e encarar a responsabilidade quando dá merda, saber se defender e enfrentar o que for preciso para buscar sua mais plena independência". Se esconder atrás de imagens do mundo espetacular é inverso disso, é estar presa. Acredito que a verdadeira liberdade vem acompanhada de muita força e é mais difícil ter força sozinha. Essa força a gente pode construir juntas, compartilhando nossas experiências e buscando formas de superar desde sentimentos que não nos fazem bem, como carência e ciúmes, até pensar novas formas de organização do trabalho para a gente chegar numa verdadeira emancipação.


Bom, se alguém acredita que as relações devem ser encaradas numa grande fila, esta é uma liberdade e liberdade é para ser exercida. Mas eu proponho uma reflexão: hoje estamos muito ocupadas cumprindo tarefas, trabalhando, estudando e preocupadas em como será amanhã e o amanhã. Poderíamos fazer tantas coisas juntas, inventar histórias, lugares e comportamentos, sair da rede e cair no mundo, em nossas vidas e dentro de nós mesmas. 

Emma Goldman: "A emancipação, compreendida pela maioria dos seus aderentes e expoentes, é estreita demais para permitir o amor sem fronteiras e o êxtase contido na profunda emoção da verdadeira mulher, namorada, mãe, em liberdade."

Rede social e a falta de liberdade:

Esta rede social azul não é propícia para grupos se articularem fora dela, ela é a própria interação. Estamos tão fartas de trabalho e demanda em nosso dia-a-dia que esta rede azul é o escape, é o elo entre as pessoas, é de onde se tira os assuntos  e como se remedia a falta de tempo na vida real. 
Mas não estamos nos distraindo de nosso cotidiano de regime de trabalho intenso? o meme não é o escape para rir da nossa desgraça?  Veja bem, todo mundo é livre para dividir seu tempo da forma que achar conveniente...

Que vida temos no entorno do trabalho?  Entrei na rede social azul e tenho muitas perguntas sobre o comportamento da maioria das pessoas e como isso pode ter me influenciado a escrever hoje.



Fotos em festas, comidas, banhos, e tudo mais de um cotidiano particular compartilhado, são relacionamentos cheios de corações, beijos, abraços e pós-sexo. Opiniões que só os seguidores vão ler. As relações são "medidas" pelo número de curtidas: quem estará acompanhando minha vida?



Todo mundo é livre para se expressar como quiser, mas quando uma pessoa compartilha tudo que faz e pensa numa rede virtual seria um sinal de que sua vida real está sem tempo, sem afeto, sem satisfação?  
Esta é a sensação que me dá. Mas o meu ponto de interesse aqui é: o que está nos motivando fazer isso? 

Liberdade e felicidade:


No mundo em que se valoriza um estilo de vida das elites, felicidade parece que é se assemelhar a este estilo de vida, padrão de comportamento, estética corporal. A nossa felicidade é sempre amanhã, nossa satisfação é construída para ser amanhã. Para a criança, quando ganhar tal brinquedo; para o trabalhador, quando "subir na vida"; para a jovem, quando fizer aquela viagem; para a mãe, quando comprar uma tv; para uns, quando se  formar; para outros, quando fumar um...E para as mulheres em geral ainda tem: "quando tiver o corpo daquela atriz" ou "quando casar". 
Só as elites podem estar satisfeitas...nós permanecemos num estado de não-satisfação insuperável no capitalismo, porque vivemos num sistema onde poucos tem a possibilidade de concretizar o que desejam , atingir um determinado status social ou atender a padrões de comportamento ou estético...e a cada dia surge, ou é fixado em nós, um novo desejo, um novo modelo, um novo produto, uma nova ferramenta... algo novo acontecendo. 
Estamos cada vez mais ansiosos e não-satisfeitos. Muitas pessoas dão vazão a suas frustrações montando uma vida feliz virtual, fumando, bebendo, usando remédios para dormir, enfim, tentando escapar da sua realidade e, assim, o sistema capitalista nos tem "no ponto": o consumidor perfeito.
E o que acontece com o que podemos ser e fazer hoje em busca de nossa liberdade de reinventar a felicidade?

Emma Goldman: "Quanto à grande massa de mulheres e meninas trabalhadoras, quanta independência pode ser conquistada se a estreiteza e a falta de liberdade do lar é trocada pela estreiteza da fábrica, da oficina, da loja ou do escritório?"

Trabalho, falta de liberdade e infância:


As horas intensas de trabalho estão nos forçando a nos afastar fisicamente das pessoas amigas e ainda nos retira da interação com nossas crianças, e as próprias estão cada vez mais cedo se relacionando só virtualmente. Estamos ensinando as crianças a não interagirem? Minha irmãs e primas vivem no computador, elas são de realidades (classes) sociais diferentes. Elas não brincam entre si. Cada uma joga em seu celular. Estamos ensinando as crianças a terem relações superficiais e virtuais?
A nossa falta de liberdade influencia no comportamento das próximas gerações. As crianças passam mais tempo sob o controle fabril das escolas e dos publicitários das TVs e PCs que enjaulam a liberdade e a felicidade sob o conhecimento mecânico e o consumo compulsório.

Sem liberdade:


Exploração do trabalho só cresce, e a cada dia que passa as leis estão mais duras com relação à liberdade de se manifestar. A criminalização dos movimentos sociais. Os sindicatos não nos dão espaço para construir a luta por dentro. Muitas feministas estão mais interessadas em colocar representantes mulheres nas instâncias de poder que verdadeiramente colocar pressão para que todo mundo que quiser, em conjunto, possa propor e decidir os rumos de uma organização. Vocês sabem, depois que vemos e sentimos como as coisas vão, tomamos nossa cerveja, postamos as fotos e no máximo compartilhamos um protesto que aconteceu aqui ou ali.

Será que estamos entrando a cada dia mais no jogo dos mega-empresários, consumindo o mundo inteiro, nos distraindo de nossa organização para superar opressões e trabalho explorado, nos perdendo neste mundo vazio de padrões de comportamentos?


O que podemos fazer? O que podemos fazer juntas? Ainda é possível pensar numa organização autônoma e criativa atuante na vida real?

Não quero a liberdade que é permitida, quero tomar aquilo que é negado. Isso para mim é liberdade.






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* Acredito que se você está afim de compartilhar suas ondas na internet, compartilhe mesmo, a regra é a mesma para o como viver, quem gostar bem, e quem não gostar, e daí? Mas toda (auto)reflexão vale.


Não sou uma mulher?

Por Sojourner Truth Bem, crianças, onde existe muita confusão deve haver alguma coisa fora de controle. Eu acho que entre os negros do Sul e as mulheres do Norte, todos falando em direitos, em breve o homem branco estará encrencado. Mas sobre o que todos aqui estão falando? O homem lá adiante diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar nas carruagens e a sair do buraco e a ter por toda parte os melhores lugares. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a sair da lama nem me deu qualquer lugar melhor! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para o meu braço! Eu lavrei a terra, plantei e juntei tudo no celeiro e nenhum homem poderia me liderar! E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar e comer tanto quanto um homem--quando eu conseguia--e suportar o chicote tão bem quanto! E não sou uma mulher? Dei à luz treze crianças e vi a maior parte delas vendidas para a escravidão e quando chorei com a tristeza de mãe só Jesus me ouviu! E não sou uma mulher? Então eles falam desta coisa na cabeça; o que é isto que eles chamam? (Inteligência, alguns chamam de sussurros). É assim, querido. O que é que fizeram dos direitos das mulheres ou dos negros? Se em minha taça não couber uma medida e na sua couber um quarto não seria mesquinho você não me deixar ter minha meia medida toda? Então aquele pequeno homem de preto lá diz que as mulheres não podem ter tantos direitos quanto os homens porque Cristo não era mulher! De onde vem seu Cristo? De onde vem seu Cristo? De Deus e uma mulher! O Homem não tem nada a fazer com Ele. Se a primeira mulher que Deus fez era forte o suficiente para virar o mundo de ponta cabeça sozinha, estas mulheres juntas devem ser capazes de novamente virá-lo de cabeça para cima ! E agora elas estão querendo fazer isso e é melhor os homens as deixarem fazer. Obrigado por me ouvirem e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer.
Tem tempo que não aparecemos aqui. Acho que essa ideia da Sojouner nos uniu. E a foto lembra muito de nós que mescla a arte, a tradicionalidade, a intelectualidade e, principalmente, a ação direta. Saudades Bete, Line, Miri e Rama. Saudades de mim com vocês também!
Cenas Ativistas Não São Espaços Seguros Para Mulheres: Sobre o Abuso de Mulheres Ativistas por Homens Ativistas

Tamara K. Nopper





Como uma mulher que tem experimentado abuso físico e emocional de homens, alguns dos quais eu tive longos relacionamentos, foi sempre difícil aprender de outras mulheres ativistas que elas estavam sendo abusadas por homens ativistas.
As questões interrelacionadas do sexismo, misoginia e homofobia em círculos ativistas são excessivas, e não é surpreendente que mulheres são abusadas física e emocionalmente por homens ativistas com os quais elas trabalham em vários projetos.
Eu não estou falando abstratamente aqui. Na verdade, eu sei de vários relacionamentos entre homens ativistas e mulheres nos quais as últimas são abusadas se não fisicamente, emocionalmente. Por exemplo, há muito tempo uma amiga minha me mostrou ferimentos em seu braço que ela me disse que foram causados por outro homem ativista. Essa mulher certamente luta emocionalmente, o que é um tanto esperado dado que ela experimentou abuso físico. O que era adicionalmente desolador de ver era como a mulher era evitada por círculos ativistas quando ela tentava falar sobre seu abuso ou o ter abordado. Alguns disseram a ela para ultrapassá-lo, ou para se focar em “verdadeiros” homens bacacas tais como proeminentes figuras políticas. Outros disseram a ela para não deixar “problemas pessoais” entrarem no caminho da “realização do trabalho”.
Eu lutei com a recuperação de minha amiga também. Como sobrevivente de abuso, era difícil encontrar uma mulher que de certa forma era um espectro de mim. Eu buscaria essa mulher, e ela iria ao acaso dizer-me sobre outra briga que ela e seu namorado haviam tido. Eu encontraria a mim mesma evitando essa mulher porque, francamente, era difícil olhar para uma mulher que me recordava muito de quem eu não era há muito tempo: uma pessoa assustada, envergonhada e desesperada que balbuciaria para qualquer pessoa disposta a ouvi-la sobre o que estava acontecendo com ela. Em outras palavras, eu, como essa mulher, tinha atravessado o desespero de tentar sair de uma relação abusiva e necessitando finalmente contar às pessoas o que estava acontecendo comigo. E similarmente a como essa mulher era tratada, a maioria das pessoas, até mesmo aqueles que eu chamava de amigos, se esquivavam de me escutar porque eles não queriam ser incomodados ou estavam lutando com suas próprias lutas emocionais.
A vergonha associada em contar às pessoas que você tem sido abusada, e como eu, centrada em uma relação abusiva, é feita ainda pior pelas respostas que você obtem das pessoas. Ao invés de serem simpáticas, muitas pessoas ficaram desapontadas comigo. Muitas vezes fui dita por pessoas que elas estavam “surpresas” em descobrir que eu havia “me envolvido com esta merda” porque diferentemente de “mulheres fracas”, eu era uma mulher “forte” e “política”. Essa resposta é completamente misógina porque ela nega quão dominante é o patriarcado e o ódio por mulheres e o “feminino”, e ao invés disso, tenta colocar a culpa nas mulheres. Isso é, estamos a ignorar que mulheres estão sendo abusadas por homens e, ao invés disso, enfatiza o caráter de mulheres como a razão definitiva pela qual algumas são abusadas e outras não “se envolvem com esta merda”.
Não posso ajudar a não ser pensar que outras mulheres ativistas que têm sido abusadas, querem seja por homens ativistas ou não, também enfrentam dificuldades semelhantes recuperando-se do abuso. Independentemente da política de alguém, as mulheres podem ser e são abusadas. Qualquer um que se recuse a acreditar nisso ou simplesmente não escuta às mulheres ou não pensa sobre o que as mulheres passam regularmente. E isso é porque eles são simplesmente hostis em reconhecer quão pervasivos e normalizados o patriarcado e a misoginia são – ambos fora e dentro de círculos ativistas.
Mais, várias de nós queremos acreditar que homens ativistas são diferentes de nossos pais, irmãos, antigos namorados e machos estranhos com os quais nós confrontamos em nossas rotinas diárias. Nós queremos ter alguma fé que o cara que escreve um ensaio sobre sexismo e o posta em seu website não o está escrevendo somente para fazer uma boa aparência dele, obter sexo, ou encobrir algumas de suas perigosas práticas com relação às mulheres. Nós queremos acreditar que as mulheres estão sendo respeitadas por suas habilidades, energia e compromisso político e não estão sendo solicitadas a fazer trabalho porque elas são vistas como “exploráveis” e “abusáveis” por homens ativistas.
Nós queremos acreditar que, se um homem ativista fez um avanço indevido ou fisicamente/sexualmente agrediu uma mulher ativista, isso seria prontamente e atenciosamente lidado por organizações e comunidades políticas – e com a contribuição da vítima. Nós queremos acreditar que grupos ativistas não são tão facilmente seduzidos pelas habilidades ou pelo “poder nomeado” que um ativista masculino trás a um projeto que eles estão dispostos a deixar uma mulher ser abusada ou não ter sua recuperação abordada em troca. E nós gostaríamos de pensar que a “cultura de segurança” em círculos ativistas não somente foca nas questões do protocolo do listserv ou usa nomes falsos em comícios, mas na verdade inclui pensar proativamente sobre como lidar com misoginia, patriarcado e heterossexismo ambos fora e dentro de cenários ativistas.
Mas todos esses desejos, todos esses sonhos obviamente não tendem a ser abordados. Em vez disso, eu sei de homens ativistas que trollam espaços políticos como predadores procurando por mulheres que eles possam manipular politicamente ou foder sem responsabilização. Como padres abusivos, alguns desses homens literalmente movem-se de cidade a cidade procurando recriar a si mesmos e encontrar carne fresca no meio daqueles que são infamiliares com sua reputação. E eu tenho visto mulheres ativistas darem seu trabalho e destrezas a homens ativistas (que frequentemente ficam com o crédito) na esperança de que o homem ativista abusivo irá finalmente adquirir seu agir correto ou a apreciará enquanto ser humano.
Enquanto o romance entre ativistas é aprazível, eu acho que é nojento como os homens ativistas usam o romance para controlar as mulheres politicamente e manter as mulheres emocionalmente comprometidas em ajudar esses homens politicamente, mesmo quando essas políticas são piegas ou problemáticas. Ou, em alguns casos, homens ativistas se envolvem em políticas para encontrar mulheres que eles possam envolver em relações abusivas e controle. E dado que esse abuso trás para fora o pior da vítima, eu tenho visto onde mulheres interagem com outras ativistas (particularmente mulheres) de maneiras que elas não normalmente estariam se elas não estivessem sendo politicamente e emocionalmente manipuladas por homens. Por exemplo, eu sei de mulheres ativistas abusadas que têm espalhado rumores sobre outras mulheres ativistas ou têm-se envolvido em brigas políticas entre seu namorado e outros ativistas.
O que é assustador é que eu sei de ativistas homens que estavam abusando e manipulando mulheres ativistas e, ao mesmo tempo, escrevendo ensaios sobre sexismo ou competição entre mulheres. Às vezes o homem ativista irá redigir o ensaio com sua namorada ativista de forma a obter mais legitimidade. Eu sei de homens ativistas que uma hora citam bell hooks, Gloria Andalzua ou outras escritoras feministas e estão incomodando ou espalhando mentiras e fofocas sobre suas namoradas ativistas em outra. E homens ativistas irão ensinar mulheres a serem menos competitivas com outras mulheres para dissimular seu comportamento abusivo e manipulador.
O que é mais desolador é o nível de suporte que homens ativistas encontram de outros/as ativistas, homens ou mulheres, mas mais habitualmente, outros homens. Não somente as mulheres ativistas têm de confrontar e negociar com seu agressor em círculos ativistas, elas devem normalmente fazê-lo em uma comunidade política que se designa comprometida mas no final não dá importância alguma sobre a segurança emocional e física da vítima. Em muitas ocasiões eu tenho ouvido as histórias das mulheres sobre abuso serem recontadas e reformuladas por homens ativistas de uma maneira hostil e sexista. E quando eles remodelam essa história, eles geralmente o fazem naquela voz, a voz que é falsa, acusatória e zombeteira.
Por exemplo, quando eu estava dividindo com um homem ativista minhas preocupações sobre como uma mulher ativista estava sendo tratada por um homem ativista que mantinha uma posição proeminente em um grupo político, o homem “ouvindo” a minha história disse naquela voz “Oh, ela só está provavelmente brava porque ele começou a namorar outra pessoa” e passou a tirar sarro dela. Ele continuou a me dizer que, enquanto ele “reconhecia” que o homem estava errado, a mulher necessita impor-se ao homem se ela quer que o tratamento pare.
Infelizmente essa marca de misoginia do homem disfarçou-se enquanto o feminismo masculino é muito comum em círculos ativistas dado que muitos homens em geral acreditam que mulheres são abusadas porque elas são fracas ou secretamente querem estar em relacionamentos com homens abusivos. Mais, seus comentários revelaram uma atitude que assume que, se mulheres ativistas têm problemas com homens ativistas, elas estão “chorando pelo abuso” para encobrir desejos sexuais ocultos e raiva por terem sido rejeitadas por homens que “não irão fodê-las”.
Eu acho repulsivo que a segurança física e emocional de mulheres é de pouca preocupação a homens ativistas em geral. Enquanto homens ativistas irão falar da boca para fora sobre como eles precisam ficar com suas bocas caladas quando as mulheres estão falando ou como espaços somente de mulheres são necessários, muito frequentemente pessoas “críticas” e “políticas” não querem confrontar o fato de que as mulheres estão sendo abusadas por homens ativistas em nossos círculos. Quando essa questão é “abordada”, mais frequentemente do que não, a atenção será dada a “batalhar com” o homem (ou seja, o deixando permanecer e talvez só fofocando sobre ele). Eu tenho visto algumas situações onde homens abusivos tornam-se adotados, assim dizendo, por outros ativistas, que vêem reabilitar o homem como parte de seus projetos e pensam pouco sobre o que isso significa para as mulheres que estão tentando se recuperar. Em alguns casos, o homem ativista abusador foi adotado enquanto a mulher foi rejeitada como “instável”, “louca” ou “muito emocional”. Basicamente, esses grupos iriam antes ajudar um cara frio e calculista que pode “mantê-lo unido” enquanto ele abusa de mulheres ao invés de lidar com a realidade que o abuso pode contribuir para as dificuldades emocionais e sociais entre vítimas enquanto elas trabalham para se tornarem sobreviventes.
E em alguns casos, ativistas mulheres irão evitar ir à polícia porque ela é crítica ao complexo industrial penentenciário, mas também porque outros homens ativistas irão dizer-lhe que ela está “contribuindo para o problema” ao “conduzir o Estado para dentro”. Mas na maioria dos casos, o homem ativista não é castigado pelos problemas que ele criou. Deste modo, as mulheres estão presas tendo que descobrir como garantir sua segurança sem ser rotulada uma “traidora” por seus colegas ativistas.
Enquanto eu sou uma forte crente que nós devemos tentar trabalhar pela cura ao invés da punição em si, eu estou dolorosamente consciente que nós frequentemente damos mais ênfase em ajudar homens a permanecerem em círculos ativistas do que apoiar mulheres através de suas recuperações, o que pode envolver a necessidade de ter o homem removido de nossos grupos políticos. Basicamente, o grupo irá normalmente determinar que o ativista abusador deve ser deixado a se curar sem perguntar à mulher o que ela necessita do grupo para curar-se e ser apoiada em seu processo. Eu sei de vários exemplos de onde mulheres eram forçadas a tolerar a indisposição do grupo para abordar o abuso. Algumas irão permanecer envolvidas em organizações porque elas acreditam no trabalho e, francamente, há poucos espaços para se ir, se houverem, onde ela não sofra o risco de ser abusada por outro ativista ou ter seu abuso não abordado. Outras irão simplesmente deixar a organização. Eu tenho visto como essas mulheres são tratadas por outros/as ativistas – homens e mulheres – que tratam mulheres friamente ou fofocam que elas são egoístas ou traidoras por deixarem o pessoal entrar no caminho do “trabalho”.
Ou, se mulheres ativistas que têm sido abusadas são “apoiadas”, é usualmente porque ela faz “bom trabalho” ou que não abordar o abuso será “ruim para o grupo”. Nesse sentido, a saúde física, emocional e espiritual de mulheres é ainda sacrificada. Em vez disso, o abuso das mulheres deve ser abordado porque, se ele não for, ela pode não continuar a fazer “bom trabalho” para a organização ou pode haver muita tensão no grupo para que ele funcione de forma eficiente. De qualquer forma, a segurança das mulheres não é vista como digna de preocupação em e de si mesma.
Em geral, cenários ativistas não são um espaço seguro para mulheres porque misóginos e homens abusivos existem no interior deles. Mais, muitos desses abusadores usam a linguagem, ferramentas de ativismo e apoio de outros ativistas como meio de abusar mulheres e esconder seus comportamentos. E infelizmente, em muitos círculos políticos, independentemente de quanto nós falemos sobre o patriarcado ou misoginia, mulheres são sacrificadas de forma a manter o “trabalho” ou salvar a organização. Talvez seja tempo de realmente nós só se importarmos que as mulheres ativistas estão vulneráveis a serem manipuladas e abusadas por homens ativistas e considerar que abordar isso proativamente é uma parte integral do “trabalho” que ativistas devem fazer.

Mulheres militantes nos dias da Grande Revolução de Outubro


Dando continuidade nas minhas leituras e reavaliando alguns pontos, eu vou publicar um texto de uma mulher que anda fazendo a minha cabeça: Alexandra Kollontai e seu amor pelo Feminismo Marxista!
Alexandra Kollontai foi dirigente feminina da Revolução Russa de 1917 e nesse texto ela aborda sobre a participação das mulheres na revolução, escrito em novembro de 1927


As mulheres que participaram na Grande Revolução de Outubro – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que, marchando lado a lado com os operários e camponeses sob a Bandeira Vermelha e a palavra-de-ordem dos Sovietes, passou por cima das ruínas do czarismo rumo a um novo futuro...
Se alguém olhar para o passado, poderá vê-las, essa massa de heroínas anônimas que outubro encontrou vivendo nas cidades famintas, em aldeias empobrecidas e saqueadas pela guerra... O lenço em sua cabeça (muito raramente, até agora, um lenço vermelho), uma saia gasta, uma jaqueta de inverno remendada... Jovens e velhas, mulheres trabalhadoras e esposas de soldados camponesas e donas-de-casa das cidades pobres. Mais raramente, muito mais raramente nesses dias, secretárias e mulheres profissionais, mulheres cultas e educadas. Mas havia também mulheres da intelligentsia entre aqueles que carregavam a Bandeira Vermelha à vitória de Outubro – professoras, empregadas de escritório, jovens estudantes nas escolas e universidades, médicas. Elas marchavam alegremente, generosamente, cheias de determinação. Elas iam a qualquer parte que fossem enviadas. Para a Guerra? Elas colocavam o quepe de soldado e tornavam-se combatentes no Exército Vermelho. Se elas portassem fitas vermelhas no braço, então corriam para as estações de primeiros-socorros para ajudar o Front Vermelho contra Kerenski na Gatchina. Trabalhavam nas comunicações do exército. Trabalhavam felizes, convictas que alguma coisa significativa estava acontecendo, e que nós somos todos pequenas engrenagens na única classe revolucionária.
Nas aldeias, a mulher camponesa (seus maridos tinham sido enviados para a Guerra) tomava a terra dos proprietários e arrancava a aristocracia dos postos onde ela se alojou por séculos.
Quando alguém recorda os acontecimentos de Outubro, não vê faces individuais, mas massas. Massas sem número, como ondas de humanidade. Mas onde quer que olhem, vêem homens – em comícios, assembléias, manifestações...
Ainda não tinham certeza do que exatamente eles queriam, pelo que lutavam, mas sabiam uma coisa: não iriam continuar suportando a guerra. Nem mesmo desejavam os proprietários de terras e ricos… No ano de 1917, o grande oceano de humanidade se levanta e se agita, e a maior parte desde oceano feita de mulheres… Algum dia a historia escreverá sobre as proezas dessas heroinas anônimas da revolução, que morreram na Guerra, foram mortas pelos Brancos e amargaram incontáveis privações nos primeiros anos seguintes a revolução, mas que continuou a carregar nas costas o Estandarte Vermelho dos Poder Soviético e do comunismo.
Isto é para aquelas heroínas anôminas, que morreram para conquistar uma nova vida para a população trabalhadora durante a Grande Revolução de Outubro, para aqueles a quem a nova república agora se curva em reconhecimento assim como ao seu povo jovem, alegre e entusiástico, começando a construir as bases do socialismo.
Entretanto, fora deste mar de mulheres de lenços e toucas surradas inevitavelmente emergem as figuras daquelas a quem os historiadores devotarão atenção particular, quando, muitos anos depois, eles escreverem sobre a Grande Revolução de Outubro e seu líder, Lênin.
A primeira figura que emerge é a da fiel companheira de Lênin, Nadezhda Konstantinovna Krupskaya, vestindo seu vestido cinza liso e sempre se esforçando para permanecer em segundo plano. Ela poderia passar desapercebida por uma assembléia e colocar-se em embaixo de algum pilar, mas ele via e ouvia tudo, observando tudo o que acontecia, então ela poderia mais tarde fornecer um relato completo para Vladimir Ilich, adicionar seus próprios hábeis comentários e expor uma idéia sensata, apropriada e conveniente.
Nesses dias Nadezhda Konstantinovna não falou nas numerosas e turbulentas assembléias nas quais as pessoas giravam em torno da grande questão: os Sovietes conquistariam o poder ou não? Mas ela trabalhou incansavelmente como braço direito de Vladimir Ilich, ocasionalmente dando depoimentos e relatando críticas nas reuniões do partido. Em momentos de grande dificuldade e perigo, quando muitos camaradas firmes perderam o ânimo e sucumbiram às dúvidas, Nadezhda Konstantinovna permaneceu sempre a mesma, totalmene convencida da justiça da causa e de sua vitória certa. Ela transmitia inabalável confiança, e sua firmeza de espírito, escondia uma rara modéstia, sempre contaminava com seu ânimo todos aqueles que entravam em contato com a companheira do grande líder da Revolução de Outubro.
Outra figura que se destaca – outra leal parceira de Vladimir Ilich, uma camarada-em-armas durante os anos difíceis do trabalho clandestino, secretária do Comitê Central do Partido, Yelena Dmitriyevna Stassova. Inteligente, com uma rara precisão, e uma excepcional capacidade para o trabalho, uma rara habilidade para “apontar” as pessoas certas para o trabalho. Sua altura, sua majestosa figura poderia ter sido a primeira no Soviete no palácio Tavricheski, depois na causa de Kshesinskaya, e finalmente Smolny. Nas suas mãos segurava um caderno de anotações, enquanto em seu redor multidões de camaradas do front, trabalhadores, guardas vermelhos, membros do partido e dos Sovietes, buscando rapidamente, respostas claras ou ordens.
Stassova carregou a responsabilidade por muitos negócios importantes, mas se um camarada demonstrava necessidade ou angústia nesses dias tempestuosos, ela sempre podia auxiliar, fornecendo explicações, respostas aparentemente rudes, mas ela fazia o que estava ao seu alcance. Ela foi esmagada com trabalho, e sempre estava a seu posto. Sempre em seu posto e, no entanto, nunca empurrou para a linha de frente, nunca adiou. Ela não gostava de ser o centro das atenções. Sua preocupação não era com ela mesma, mas com a causa.
Para a nobre e estimada causa do comunismo, pela qual Yelena Stassova experimentou o exílio e a detenção nas penitenciárias do regime czarista, deixando-a com a saúde prejudicada... Em nome da causa ela era firme como aço. Mas em relação ao sofrimento de seus camaradas ela demonstrava a sensibilidade e a receptividade que só se encontram em uma mulher com um coração afetuoso e nobre.
Klavdia Nikolayeva era uma mulher trabalhadora de origem muito humilde. Ela uniu-se aos bolcheviques já em 1908, nos anos da reação, e suportou o exílio e a prisão... Em1917 ela retornou a Leningrado e se tornou a organizadora da primeira revista para as mulheres trabahadoras, Kommunistka. Ela ainda era jovem, cheia de ânimo e ansiedade. Então ela segurava firmemente o estandarte, e corajosamente declarava que as trabalhadoras, esposas de soldados e camponesas precisavam ingressar no partido. Ao trabalho, mulheres! Vamos defender os Sovietes e o Comunismo!
Ela discursava em comícios, ainda nervosa e insegura de si, mas já atraia as pessoas para segui-la. Ela era a única entre os que carreavam no ombro todas as dificuldades envolvidas na preparação do caminho a se seguir, disseminando o envolvimento das mulheres na revolução, uma daquelas que lutou em duas frentes – pelos Sovietes e o comunismo, e ao mesmo tempo para a emancipação das mulheres. Os nomes Klavdia Nikolayeva e Konkordia Samoilova, que morreram exercendo funções revolucionárias em 1921 (vítimas da cólera), são indissoluvelmente ligados aos primeiros e mais difíceis passos do movimento das trabalhadoras, particularmente em Leningrado. Konkordia Samoilova foi uma militante do partido de incomparável abnegação, excelência, uma oradora metódica que sabia ganhar os corações dos trabalhadores. Aqueles que trabalhavam ao seu lado lembrarão por por muito tempo de Konkordia Samoilova. Ela era simples nos costumes, simples na aparência, exigente na execução das decisões, severa com ela mesma e com os outros.
Particularmente notável é a gentil e encantadora figura de Inessa Armand, que foi incumbida de um trabalho partidário muito importante na preparação da Revolução de Outubro, e que depois contribuiu com muitas idéias criativas para o trabalho entre as mulheres. Com toda sua feminilidade e bondade nas maneiras, Inessa Armand era inabalável em seus convicções e capaz de defender aquilo que ela acreditava correto, nesmo quando deparada com temíveis oponentes. Depois da revolução, Inessa Armand se dedicou à organização do amplo movimento das trabalhadoras, e a conferência foi sua criação.
Um imenso trabalho foi feito por Varvara Nikolayevna Yakovleva durante os difíceis e decisivos da Revolução de Outubro em Moscou. No terreno de batalha das barricadas ela mostrou a determinação meritória de uma líder do quartel-general do partido. Muitos camaradas disseram na ocasião que sua determinação e coragem inabaláveis foi o que deu ânimo aos vacilantes e inspirou aqueles que haviam perdido suas forças. “Avante!” – para a vitória.
Assim que se recorda das mulheres que tomaram parte na Grande Revolução de Outubro, mais e mais nomes e faces surgem como mágica da memória. Poderíamos falhar ao honrar hoje a memória de Vera Slutskaya, que trabalhou de modo abnegado na preparação para a revolução e que foi morta pelos Cossacos no primeiro front Vermelho próximo a Petrogrado?
Podemos nos esquecer de Yevgenia Bosh , com seu temperamento inflamado, sempre pronta para a batalha? Ela também morreu no trabalho revolucionário.
Podemos nos omitir de mencionar aqui dois nomes intimamente ligados com a vida e a atividade de V. I. Lênin – suas duas irmãs e companheiras em armas, Anna Ilyinichna Yelizarova e Maria Ilyinichna Ulyanova?
…E a camarada Varya, das oficinas de linhas de trem em Moscou, sempre animada, sempre inquieta? E Fyodorova, trabalhadora têxtil de Leningrado, com seu rosto amável e sorridente e seu destemos quando estava lutando nas barricadas?
É impossível listar todas elas, e quantas delas permanecem desconhecidas? As heroínas da Revolução de Outubro formavam todo um exército, e embora seus nomes estejam esqucidos, sua abnegação vive em cada vitória daquela revolução, em todos os ganhos e façanhas desfrutadas pelos trabalhadores da União Soviética.
É logico e incontestável que, sem a participação das mulheres, a Revolução de Outubro não traria a Bandeira Vermelha da vitória. Glória às trabalhadoras que marcharam sob a bandeira vermelha durante a Revolução de Outubro. Glória à Revolução de Outubro que libertou as mulheres!

Diário das Mulheres, nº 11, Novembro de 1927

Mulheres anarquistas Vol. 2

A Mabel tá bombando, ein. Fez um resgate das mulheres anarquistas vol 1, que fala das mulheres anti-autoritárias sec XX e XIX, que está disponível AQUI. E agora lançou o volume 2. Tô louca pra ler!! Por enquanto ficamos com a foto:

E no embalo...


Será que alguém ainda acompanha o blog? É uma boa pergunta à se fazer depois do esvaziamento das apimentadas. Acho que Mirela ainda tem um carinho pelo blog, ne?
Pois bem, ainda no embalo da conversa com o Robson, acabei encontrando uns textos que tinha traduzido há um tempo e que se perderam no antigo computador. Acredito que alguns eu tenha impressos, outros, não sei. Vou procurar na minha bagunça de classificadores e ir postando aqui com calma. Acho que quando encontrar, vou voltar a divulgar o blog. Já que a intenção primeira era formar as mulheres, continuarei com as traduções dos textos. Enquanto isso não chega.. fico com uma poesia de Judith Malina:

LA TRISTE VIDA DE UNA MUJER


lo primero que aprende

es que no es un hombre

y tarde o temprano

el ser mujer

se vuelve un carga.



y tarde o temprano aprende

que conlleva beneficios

dolorosos y dolorosos

perjuicios

que debe combatir



ella entiende, de algún modo,

que el perjuicio mayor

es la sumisión, y tarde o temprano,

ella, se somete, de algún modo,

ella utiliza con paciencia e incomodidad

las dolorosas alternativas

ella se asusta y quiere

ser una mujer madura

y llega a ser mujer madura

y se asusta

de ser mujer madura.



aveces escoge, pero

principalmente es escogida

por uno o varios hombres

que se vuelven sus protectores,

sus destructores

sus maridos

y amantes

que encarnan para bien

o para mal

los distintos grados

de todo lo que pasa

entre un hombre

y una mujer.


aveces su cuerpo se abre

y deja salir un hijo

frecuentemente su cuerpo es

destrozado

con un dolor insoportable

aunque más frecuentemnte

su cuerpo es destrozado

con un dolor

soportable.


casi nunca o aveces o nunca o siempre

un hombre

penetra su cuerpo

por cien motivos

diferentes para ella

aunque nunca por amor

que ella de algún modo

busca

y de algún modo,

encuentra.



cuando ella ya ha sufrido

lo suficiente

y se desangra y no se desangra

y da a luz o aborta

y llora o no llora

desde el traje de novia

al luto de viuda

aprende

y cuando está cansada

aprende

que ya es vieja.


todo esto más temprano o más tarde

demasiado temprano

o demasiado tarde

y aprende

a conformarse a la vida

que una mujer vieja

de algún modo

vive.

en un mundo que desprecia

a las viejas

ella aprende a conformarse

a algo parecido a una vida

que nunca mereció,

a no ser que muera joven.

Feminismo, Classe e Anarquismo

Como sempre, as pessoas queridas nos ajudam sem perceber, né?
Hoje estava conversando com o campanheiro da ORL - Organização Resistência Libertária. Ele havia me pedido uns materiais sobre anaquismo e feminismo pra poder ajudar na construção do debate feminista anti-autoritário no Ceará.
E eu acabei encontrando coisas antigas no meu computador, desde filmes, livros, zines, coisas que fizeram minha cabeça voar anos anteriores. Entre as coisas, encontrei um livreto lançado pela Faísca Editora chamado Feminismo, Classe e Anarquismo.
É um livro bem legal, com vários pontos interessantes... Baixem AQUI o livreto.

Abraços!

O VALOR É O HOMEM


TESES SOBRE A SOCIALIZAÇÃO PELO VALOR E A RELAÇÃO ENTRE OS SEXOS


Roswitha Scholz


RESUMO

Este artigo discute o problema da correlação entre capitalismo e patriarcado, que, segundo a autora, ainda permanece sem solução, após vinte anos de pesquisa feminista. A autora rejeita a tentativa que fazem alguns grupos feministas de - ao tentar introduzir a problemática dos sexos como relação social constitutiva na crítica marxista ao patriarcado - conferir ao trabalho doméstico o mesmo estatuto do trabalho assalariado, o que levaria a uma reificação ainda maior das relações sociais no plano teórico. E propõe a tese de que a contradição básica da socialização através da forma-valor é determinada com especificação sexual. Tratar-se-ia, portanto, de compreender o trabalho abstrato e o valor como princípio masculino, caso contrário se recairia numa hierarquia conceitual, em que a distribuição dos papéis sexuais é remetida a uma correlação secundária.

Palavras-chave: patriarcado; capitalismo; feminismo; marxismo; valor; socialização; relação entre os sexos.





Veja o artigo na íntegra aqui

Beijaaas

E As Anarco-Feministas O Que São?

Esses dias estive conversando com uma amiga sobre o femismo e a anarquia, ou sobre o feminismo e o autonomismo. Comecei a perceber que esse debate foi tão esquecido por nós. Veja bem, quando vamos atuar junto as/aos marxistas em questões outras, sabemos muito bem até onde vai o limite da parceria, mas quando falamos sobre as feministas, colocamos todas no mesmo patamar e esquecemos onde está a diferença está.
Ou até mesmo começamos a assumir alguns referenciais marxistas no nosso vocabulário e na nossa forma de conceber e praticar a política.
Pensei então em ir recuperando e postando por cá textos que me fazem lembrar o porque sempre tive mais afinidade política com as anarcafeministas que com as marxistas e estadistas.
Opa, esse é debate meu e não das outras meninas apimentadas ;).


Segue o texto da Valéria Bolevari :


" Conhecemos a aparência de uma bota
vista de baixo,
conhecemos a filosofia das botas...

Logo invadiremos como ervas daninha
em todo lugar, mas devagar...
as plantas cativas farão revolta
conosco, os muros cairão.

Não existirão mais as botas
No entanto, comemos terra
e dormimos; estamos esperando
embaixo dos seus pés;

Quando dissermos: ataque!
você não ouvirá nada
no começo..."

(Peggy Kornegger)



Quando se ouve a palavra anarco-feminismo, logo vem a impressão de mulheres que excluem os homens de suas vidas, que querem separar as pessoas pelo sexo, etc. Mas o que nem sempre se para prá pensar, é porque se tem essa impressão.

Continuam, até mesmo os anarquistas, a se espelharem nas imagens distorcidas que são veiculadas pelos meios de comunicação da sociedade burguesa. Se assim fosse, acreditaríamos também que anarquia é bagunça, que Deus existe, que os anjos existem e tem asas...

É necessário, para se compreender realmente alguma coisa, que nos desvinculemos das respostas prontas já fornecidas pela imprensa burguesa, que a mente se abra para receber novas idéias e questioná-las.

Anarco-feminismo não é separatismo! Se você é homossexual e resolve se juntar a outros homossexuais para lutar por sua emancipação, você está sendo separatista? Você acredita que cada classe oprimida conquista sua liberdade através de seu próprio esforço e luta? Sim? Então, pára de reclamar! As mulheres estão se dando conta do quanto são oprimidas e exploradas dentro da sociedade patriarcal, de que nunca puderam ouvir sua própria voz e discutir sua opressão. O que acontece, hoje, no movimento libertário, é que nós, mulheres que estamos tomando consciência de nossa condição de proletária do proletário ou escrava do homem escravo, temos condições de levantar a cabeça e discutir com outras mulheres (que também são vítimas da mesma opressão) o que queremos fazer para lutar contra isso. E isso não são apenas os homens machistas, mas sim uma sociedade cristalizada no patriarcado, onde os valores estão montados em cima da exploração, da escravidão e do preconceito.

Precisamos de espaço para mostrar nossa cultura e desenvolver nossas potencialidades, que foram sufocadas no patriarcado. Tudo isso, só conseguiremos com muito trabalho conjunto e abertura, para que possamos mostrar o que queremos fazer e como fazer. Temos que desenvolver o nosso lado feminino real, e não o feminino imposto pela sociedade machista. Os nossos valores foram sufocados e, em lugar desses, vieram valores integrados, como a estética, a beleza, o comportamento, a maternidade obrigatória, etc., que não são naturais como parecem. Tais coisas, somente nós mesmas podemos avaliar, questionar e mudar, mais ninguém. Não se pode chegar para um negro e dizer-lhe o que fazer para lutar contra sua discriminação, se você nunca sofreu isso. Você pode ajudá-lo e apoiá-lo, mas se você nunca sofreu discriminação racial, nunca poderá saber o que ele sente, quanto mais decidir o que ele deve fazer. O mesmo ocorre com as mulheres.

Mudando nosso comportamento e nossa visão de mundo, estaremos muito mais abertas para relacionamentos realmente recíprocos, e não paternalistas. Teremos muito mais autonomia para batalhar em outros coletivos e tomar conta de nossas próprias vidas. Isso é fato!

Os grupos de mulheres têm essa função que, dentro do movimento anarquista, se torna imprescindível para quem almeja uma sociedade livre, humana e igualitária.

Aqueles que torcem o nariz ou fazem de tudo para atrapalhar a luta de um grupo específico, não compreendem que a base do anarquismo está no indivíduo, e que somente a partir do indivíduo é que se inicia uma revolução. Se cada classe oprimida se unisse e trabalhasse a sua questão, em vez de tentar ficar fazendo tudo ao mesmo tempo, nossa evolução/revolução seria muito mais concreta, com bases sólidas, pois cada grupo estaria desenvolvendo um trabalho contínuo, o que renderia frutos. Pense sobre isso.

Nós precisamos de espaço e vamos lutar por ele. Que alguns torçam o nariz, que outros falem mal por não entenderem, que façam abaixo assinados e panfletagens, o que quiserem, mas estamos aqui e pronto! Acreditamos no anarquismo, mas só acreditamos nele funcionando no dia-a-dia. Se nós mulheres criamos grupos específicos, é porque estes nasceram dá necessidade, e não por brincadeira.

Nossa luta não se restringe apenas ao feminismo, mas sim a tudo que engloba o anarquismo e, por isso, nossas atividades sempre são em conjunto com outros grupos anarquistas e anarco punks, os quais apoiamos e nos apoiam, sendo a luta e a caminhada lado a lado. Se a possibilidade das mulheres tomarem conta de sua própria luta o assusta, então apavore-se, pois nossa arte, nossa escrita, nossa poesia e nossa forma de lutar vão estar correndo livres velas ruas!

Loucas de Pedras Lilás lançam vídeos sobre o Feminismo

Meninas,
Como estão? Espero que estejam maravilhosamente bem!
Por cá, estou indo e finalmente volto a postar no blog.
Trago uma das notícias mais alegres do ano... As loucas de Pedras Lilás lançaram uma série de vídeos com o slogan "Loucas pelo Direito de Decidir".
É só clicar no nome e assistir!

Apresentação
Parte 1: Aflições
Parte 2: Onde você mora?
Parte 3: A Clandestinidade
Parte 4: O Poder Médico
Parte 5: O Maltrato
Parte 6: O Estado Laico
Parte 7: A Luta Legal
Parte 8: Quem Decide?


Conheça mais as Loucas, clique aqui

Um grande beijo!

ÁFRICA DO SUL: PARE O "ESTUPRO CORRETIVO"



O "estupro corretivo", uma prática horrenda de estuprar lésbicas para "curar" a sua sexualidade, se tornou uma crise na África do Sul.

Millicent Gaika (foto acima) foi atada, estrangulada e estuprada repetidamente durante um ataque no ano passado. Ativistas sul-africanas corajosas estão arriscando as suas vidas para garantir que o caso da Millicent desperte mudanças. O seu apelo para o Ministro da Justiça repercutiu tanto que conquistou 140.000 assinaturas, forçando o ministro a responder ao caso em rede nacional.

Se muitos de nós aderirem, conseguiremos amplificar esta campanha, ajudando a conquistar ações governamentais urgentes para acabar com o "estupro corretivo". Vamos exigir que o Presidente Zuma e o Ministro da Justiça condenem publicamente o "estupro corretivo", criminalizem crimes de preconceito e liderem uma guinada crucial contra o estupro e homofobia no país. Assine a petição agora e divulgue.

ASSINE ESTA PETIÇÃO:
https://secure.avaaz.org/po/stop_corrective_rape/?cl=923654720&v=8260

Enegrecer o feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero

No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas conseqüências. Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades, configurando aquilo que Ângela Gilliam define como “a grande teoria do esperma em nossa formação nacional”, através da qual, segundo Gilliam: “O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance”.
O que poderia ser considerado como história ou reminiscências do período colonial permanece, entretanto, vivo no imaginário social e adquire novos contornos e funções em uma ordem social supostamente democrática, que mantém intactas as relações de gênero segundo a cor ou a raça instituídas no período da escravidão. As mulheres negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres negras.
Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados.
São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular.
Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de
afirmação de superioridade do vencedor.
Hoje, empregadas domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.
Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar, da musa idolatrada dos poetas, de que mulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de nada, que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira, porque o modelo estético de mulher é a mulher branca. Quando falamos em garantir as mesmas oportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho, estamos garantindo emprego para que tipo de mulher? Fazemos parte de um contingente de mulheres para as quais os anúncios de emprego destacam a frase: “Exige-se boa aparência”.
Quando falamos que a mulher é um subproduto do homem, posto que foi feita da
costela de Adão, de que mulher estamos falando? Fazemos parte de um contingente de mulheres originárias de uma cultura que não tem Adão. Originárias de uma cultura violada, folclorizada e marginalizada, tratada como coisa primitiva, coisa do diabo, esse também um alienígena para a nossa cultura. Fazemos parte de um contingente de mulheres ignoradas pelo sistema de saúde na sua especialidade, porque o mito da democracia racial presente em todas nós torna desnecessário o registro da cor dos pacientes nos formulários da rede pública, informação que seria indispensável para avaliarmos as condições de saúde das mulheres negras no Brasil, pois sabemos, por dados de outros países, que as mulheres brancas e negras apresentam diferenças significativas em termos de saúde.
Portanto, para nós se impõe uma perspectiva feminista na qual o gênero seja uma variável teórica, mas como afirmam Linda Alcoff e Elizabeth Potter, que não “pode ser separada de outros eixos de opressão” e que não “é possível em uma única análise. Se o feminismo deve liberar as mulheres, deve enfrentar virtualmente todas as formas de opressão”. A partir desse ponto de vista, é possível afirmar que um feminismo negro, construído no contexto de sociedades multirraciais, pluriculturais e racistas – como são as sociedades latino-americanas – tem como principal eixo articulador o racismo e seu impacto sobre as relações de gênero, uma vez que ele determina a própria hierarquia de gênero em nossas sociedades.
Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas.
Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira. Esse novo olhar feminista e anti-racista, ao integrar em si tanto as tradições de luta do movimento negro como a tradição de luta do movimento de mulheres, afirma essa nova identidade política decorrente da condição específica do ser mulher negra. O atual movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos
movimento negro e de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a feminização das propostas e reivindicações do movimento negro.
Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e instituir na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégio entre as mulheres brancas e negras.
Tem-se, ainda, estudado e atuado politicamente sobre os aspectos éticos e eugênicos colocados pelos avanços das pesquisas nas áreas de biotecnologia, em particular da engenharia genética. Um exemplo concreto refere-se, por exemplo, às questões de saúde e de população. Se, historicamente, as práticas genocidas tais como a violência policial, o extermínio de crianças, a ausência de políticas sociais que assegurem o exercício dos direitos básicos de cidadania têm sido objetos prioritários da ação política dos movimentos negros, os problemas colocados hoje pelos temas de saúde e de população nos situam num quadro talvez ainda mais alarmante em relação aos processos de genocídio do povo negro no Brasil. Portanto, esse novo contexto de redução populacional, fruto da esterilização maciça – aliada tanto à progressão da AIDS quanto do uso da droga entre a nossa população – e das novas biotecnologias, em particular a engenharia genética, com as possibilidades que ela oferece de práticas eugênicas, constitui novo e alarmante desafio contra o qual o conjunto do movimento negro precisa atuar.
A importância dessas questões para as populações consideradas descartáveis, como são os negros, e o crescente interesse dos organismos internacionais pelo controle do crescimento dessas populações, levou o movimento de mulheres negras a desenvolver uma perspectiva internacionalista de luta. Essa visão internacionalista está promovendo a diversificação das temáticas, com o desenvolvimento de novos acordos e associações e a ampliação da cooperação interétnica. Cresce ente as mulheres negras a consciência de que o processo de globalização, determinado pela ordem neoliberal que, entre outras coisas, acentua o processo de feminização da pobreza, coloca a necessidade de articulação e intervenção da sociedade civil a nível mundial. Essa nova consciência tem nos levado ao desenvolvimento de ações regionais no âmbito da América Latina, do Caribe, e com as mulheres negras dos países do primeiro mundo, além da participação crescente nos fóruns internacionais, nos quais governos e sociedade civil se defrontam e definem a inserção dos povos terceiro-mundistas no terceiro milênio.
Essa intervenção internacional, em especial nas conferências mundiais convocadas pela ONU a partir da década de 1990, tem nos permitido ampliar o debate sobre a questão racial a nível nacional e internacional e sensibilizar movimentos, governos e a ONU para a inclusão da perspectiva anti-racista e de respeito à diversidade em todos os seus temas. A partir dessa perspectiva, atuamos junto à Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, em 1994, em relação à qual as mulheres negras operaram a partir da idéia de que “em tempos de difusão do conceito de populações supérfluas, liberdade reprodutiva é essencial para as etnias discriminadas para barrar as políticas controladoras e racistas”.
Assim, estivemos em Viena, na Conferência de Direitos Humanos, da qual saiu o compromisso sugerido pelo governo brasileiro, de realização de uma conferência mundial sobre racismo e outra sobre imigração, para antes do ano 2000. Atuamos no processo de preparação da Conferência de Beijing, durante o qual foi realizado um conjunto de ações através das quais é possível medir o crescimento da temática racial no movimento de mulheres do Brasil e no mundo. Vale destacar que a Conferência de Viena assumiu que os direitos da mulher são direitos humanos, o que está consubstanciado na Declaração e no Programa de Ação de Viena, que dão grande destaque à questão da mulher e pregam a sua plena participação, em condições de igualdade, na vida política, civil, econômica, social e cultural nos níveis nacional, regional e internacional, e a erradicação de todas as formas de discriminação sexual, considerando-as objetivos prioritários da comunidade internacional.
Se a Declaração de Viena avança na compreensão da universalidade dos direitos humanos das mulheres, para nós mulheres não brancas era fundamental uma referência explícita à violação dos direitos da mulher baseada na discriminação racial. Entendíamos que a Conferência de Beijing deveria fazer uma referência explícita à opressão sofrida por um contingente significativo de mulheres em função da origem étnica ou racial. Essas conferências mundiais se tornaram espaços importantes no processo de reorganização do mundo após a queda do muro de Berlim e constituem hoje fóruns de recomendações de políticas públicas para o mundo.
O movimento feminista internacional tem operado nesses fóruns como o lobby mais eficiente entre os segmentos discriminados do mundo. Isso explica o avanço da Conferência de Direitos Humanos de Viena em relação às questões da mulher, assim como os avanços registrados na Conferência do Cairo e na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), realizada no Rio de Janeiro em 1992. Nos esforços desenvolvidos pelas mulheres na Conferência de Beijing, um dos resultados foi que o Brasil, pela primeira vez na diplomacia internacional, obstruiu uma reunião do G-77, grupo dos países em desenvolvimento do qual faz parte, para discordar sobre a retirada do termo étnico-racial do Artigo 32 da declaração de Beijing, questão inegociável para as mulheres negras do Brasil e dos países do Norte. A firmeza da posição brasileira assegurou que a redação final do Artigo 32 afirmasse a necessidade de “intensificar esforços para garantir o desfrute, em condições de igualdade, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais a todas as mulheres e meninas que enfrentam múltiplas barreiras para seu desenvolvimento e seu avanço devido a fatores como raça, idade, origem étnica, cultura, religião...” O próximo passo será a monitoração desses acordos por parte de nossos governos.

Conclusões

A origem branca e ocidental do feminismo estabeleceu sua hegemonia na equação das diferenças de gênero e tem determinado que as mulheres não brancas e pobres, de todas as partes do mundo, lutem para integrar em seu ideário as especificidades raciais, étnicas, culturais, religiosas e de classe social. Até onde as mulheres brancas avançaram nessas questões? As alternativas de esquerda, de direita e de centro se constroem a partir desses paradigmas instituídos pelo feminismo que, segundo Lélia Gonzalez, apresentam dois tipos de dificuldades para as mulheres negras: por um lado, a inclinação eurocentrista do feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais da democracia racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter central da questão da raça nas hierarquias de gênero e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem mediá-los na base da interação entre brancos e não brancos; por outro lado, revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar “toda uma história feita de resistência e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral (que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo)” . Nesse contexto, quais seriam os novos conteúdos que as mulheres negras poderiam aportar à cena política para além do “toque de cor” nas propostas de gênero? A feminista negra norte-americana Patricia Collins argumenta que o pensamento feminista negro seria “(...) um conjunto de experiências e idéias compartilhadas por mulheres afro-americanas, que oferece um ângulo particular de visão de si, da comunidade e da sociedade... que envolve interpretações teóricas da realidade das mulheres negras por aquelas que a vivem...” A partir dessa visão, Collins elege alguns “temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”.
Entre eles, se destacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de raça, gênero e classe e o combate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”. Acompanhando o pensamento de Patricia Collins, Luiza Barros usa como paradigma a imagem da empregada doméstica como elemento de análise da condição de marginalização da mulher negra e, a partir dela, busca encontrar especificidades capazes de rearticular os pontos colocados pela feminista norte-americana. Conclui, então, que “essa marginalidade peculiar é o que estimula um ponto de vista especial da mulher negra, (permitindo) uma visão distinta das contradições nas ações e ideologia do grupo dominante”. “A grande tarefa é potencializá-la afirmativamente através da reflexão e da ação política”.
O poeta negro Aimé Cesaire disse que “as duas maneiras de perder-se são: por segregação, sendo enquadrado na particularidade, ou por diluição no universal”. A utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero. Esse é o sentido final dessa luta.
Acredito que nessa década, as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho de autodeterminação política, soltaram as suas vozes, brigaram por espaço e representação e se fizeram presentes em todos os espaços de importância para o avanço da questão da mulher brasileira hoje. Foi sua temática a que mais cresceu politicamente no movimento de mulheres do Brasil, integrando, espera-se que definitivamente, a questão racial no movimento de mulheres. O que impulsiona essa luta é a crença “na possibilidade de construção de um modelo civilizatório humano, fraterno e solidário, tendo como base os valores expressos pela luta antiracista, feminista e ecológica, assumidos pelas mulheres negras de todos os continentes, pertencentes que somos à mesma comunidade de destinos”. Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade.

Sueli Carneiro - Artigo
Anarquismo e Feminismo
Nicole Laurin-Frenette

As novas formas de "relações conjugais" e de "relações domésticas" sugerem um novo modelo de feminilidade: o da "mulher liberada", segundo um tipo de liberação que convém a economia capitalista e as políticas dos Estados governantes.
O princípio básico desta feminilidade é a igualdade na diferença. De um lado, as mulheres adquiriram os mesmos direitos e deveres que os homens, no que diz, respeito ao matrimônio, a família ao trabalho e à vida política social. Do outro lado, as diferenças específicas homem - mulher devem e precisam ser preservadas.
Esta especificidade refere-se a toda uma série de características físicas, intelectuais e emocionais que são consideradas típicas da natureza feminina. No entanto, tal conceituação de feminilidade não mais eficiente para descrever a mulher no mundo atual Antes, impõe e estabelece um novo estereótipo normatizado e normalizado da mulher.
Os componentes clássicos da mulher submissa eram: heterossexualidade, passividade, narcisismo e sentimentalismo. Hoje, os componentes básicos da mulher liberada camuflam os anteriores e adaptam a mulher às características deste novo ser emergente: individualismo, autonomia, força, autocontrole, eficácia e racionalidade.
Não obstante as suas contradições, este modelo e mulher justifica psicologicamente e permite socialmente ao mesmo tempo a relação conjugal, a maternidade e, na esfera das relações econômicas, a divisão do trabalho com o homem.
No contexto político, a feminilidade é objeto de negociações de todo tipo entre os movimentos feministas e as instituições que produzem, difundem e inculcam ideologias nas sociedades modernas: o Estado, os meios de comunicação e o meio cultural.
O modelo da "mulher liberada" é, basicamente, o reflexo das relações de poder entre esses dois agentes: Os movimentos feministas e os Estados governantes. Este novo modelo de feminilidade não só torna possível formas "avançadas" de opressão sobre a "mulher liberada", como também, constitui o fator - chave da reversibilidade do movimento de liberação feminina, enquanto movimento cooptado pelo Estado.
A história das mulheres é uma história de avanços e recuos. Em certos períodos históricos, as mulheres adquiriram direitos formais e informais que, em outros períodos, foram perdidos. Por outro lado, outros foram conquistados, de maneiras diversas e em contextos diversos, e assim por diante.
Toda mudança econômica, social e política relevante implica em conseqüências positivas ou negativas para as mulheres. Melhorias em sua condição são sempre fruto de uma mobilização ativa, inserida na contradição dessas mudanças.
A ideologia da feminilidade reflete a variação, no tempo, de uma essência mantida imutável: "o eterno feminino". A eficácia do feminismo, a curto e a longo prazos, depende, em grande parte, da capacidade das mulher em impedir a formação e a institucionalizacão de novas variantes do "eterno feminino", mesmo que venham apresentadas como parte integrante do processo de liberação da mulher.
O potencial de força das mulheres somente poderá ser mobilizado e usado em favor de sua verdadeira liberação, se o movimento feminista trilhar um caminho verdadeiramente revolucionário. Em outras palavras, se optar por uma mudança da ordem social e não na ordem social.
O anarquismo oferece instrumentos de organização e de luta revolucionária capazes de tornar realidade o potencial subversivo do feminismo.
Em sua origem, o feminismo representou um sério golpe nas estruturas de poder, em sua forma mais elementar e básica: o controle interpessoal, no jogo recíproco de força e consenso.
Mas a força do protesto feminista pode-se voltar contra as mulheres, se, em sua luta contra a dominação, decidirem aliar-se às instituições detentoras de poder: os partidos políticos e os aparelhos de Estado.
O Estado tornou-se (ou foi convertido em) interlocutor privilegiado do movimento feminista moderno, desde seu surgimento, e de forma cada vez mais íntima. Em seu diálogo com o Estado, o movimento das mulheres, ao formular suas reivindicações principais, terminou por assimilar-lhe a linguagem.
Dessa forma, adquiriram elas direitos que o Estado pode garantir, reformas que o Estado pode realizar e recursos que o Estado pode distribuir.
Ainda o Estado apresenta-se como agente garantidor de mudanças em esferas privadas que ele (Estado) não pode realizar diretamente, coma no caso de relações sexuais e afetivas homem – mulher.
Da mesma maneira que a movimento operário, especialmente em suas formas sindicais institucionalizadas, o movimento feminista é, a todo momento, levado a negociar com o Estado. Por sen turno, o movimento feminista dispõe-se a esse tipo de negociação porque lhe parece que somente esta forma mostra-se capaz de impor respeito a maridos, patrões, pais, concidadãos, colégios, dirigentes de todo tipo, intelectuais, etc.
Essa interação movimento feminista - Estado é coerente com a lógica dos sistemas sociais vigentes. De fato, a função principal do Estado moderno é expressar e neutralizar as tensões e os conflitos causados por atritos entre sujeitos sociais, especialmente as relativos a classes sociais e sexos.
Todo movimento de protesto, a qualquer nível de luta, é necessariamente remetido ao Estado. E este dispõe dos recursos e mecanismos necessários para neutralizá-lo. Pode e tem reprimido protestos com o uso da violência, mas também tem e pode determinar realizar modificações funcionais do sistema, com vistas a reduzir as tensões, sem comprometer a sua autoridade e perpetuação.
A história do movimento operário, das lutas raciais, dos movimentos estudantis oferecem uma farta ilustração de como opera o mecanismo estatal de controle nas Sociedades modernas.
Sem dúvida, as mulheres obtiveram, sobretudo por parte do Estado, o reconhecimento de certos direitos e melhorias parciais de sua condição. Na maior parte dos casos, estas vitórias das mulheres tornaram-se, também, vitórias do Estado, na medida em que significaram, em certa medida, um aumento da capacidade do Estado de controlá-las e a seu movimento.
Alguns organismos instalados a nível governamental têm toda a aparência de mecanismos permanentes de controle sobre as mulheres e seu movimento, como, por exemplo, comitês, comissões, institutos montados para estudar a mulher, formular soluções para seus problemas e, até, para montar e implantar projetos feministas.
Estes organismos e instituições multiplicam-se e proliferam em sociedades nas quais a movimento feminista tem provocado fortes impactos e possui articulações regionais e internacionais.
A despeito dessa interação, as relações mulheres - Estado estão longe de ser harmoniosas. Isso porque a Estado não resolveu - e nem pode resolver - as contradições que alimentam a revolta e a resistência das mulheres. Se, por um lado, oferece-se como um interlocutor e lhe fornece canais legais de reivindicações, por outros neutraliza seu potencial revolucionário e corrói seu potencial de libertação.
0 movimento feminista proclama, como principio, que o privado é político. Séculos de opressão demonstram que a afirmação é verdadeira sob todos as seus aspectos.
É chegado o momento, no entanto, de uma predominâcia da esfera privada sobre a pública. A primeira é vida e desejo. A segunda é ordem e imposição. Imposição que sempre vem sob a camuflagem de ajudar o desejo, desejo que é sempre posto a serviço da ordem. Porque se trata, aqui, daquele desejo que a ordem programou e daquela imposição que o desejo previu e a ela se sujeitou.
Para subverter este sistema, é necessário superar a linha imaginária que se construiu entre esfera pública e esfera privada. São duas faces da mesma moeda: a Estado - família e a família - Estado.
É necessário liberar a consciência para o fato de que, neste âmbito de solidão e luta, a moeda corrente é o controle.
Além de outras formas que devem ser liberadas, está aquela a que me referi no inicio - a feminilidade – e tal só pode ser feito se entendermos que é o poder que a produz e que são as mulheres as suas prisioneiras.

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Nicole Laurin-Frenette
Professora de Sociologia na Universidade de Montreal
Membro do Instituto Anarchos,
Montreal Canadá,
in "Volontà", no. 4, 1982.
revista anarquista trimestral
editada na Itália
Revista Utopia #1, primavera de 1988
Não ser mulher é a alternativa lésbica¹

Por Yuderkys Espinosa Miñoso

Há, aproximadamente, três décadas que Monique Wittig disse que “ nós lésbicas não somos mulheres”² produzindo um movimento cujas ressonâncias nos chegam até hoje em dia. Enquanto o destino da frase percorria diferentes trânsitos e recepções a favor ou contra, é certo dizer que a mesma faz mais que enclausurar: define uma identidade por oposição, abre um debate impossível de ser fechado. Por que se as lésbicas não são mulheres, uma poderia perguntar-se em seguida, o que são? Pergunta que poderia não ter poucas respostas, nem simples, pelo menos ao se assumir e se seguir a tradição desconstrutivista assumida por Wittig.
Este trabalho se centra, em primeiro momento, na frase de Wittig para tentar rever sua intencionalidade política, sua aposta, e suas repercussões para além dos próprios assuntos referentes às lésbicas; igualmente tenta fornecer uma análise crítica que indague e dê conta de suas limitações. Há aqui algumas perguntas chaves que tentarei dar resposta: De que forma e por que na afirmação de Wittig se mantêm entrecruzadas uma história do gênero e do desejo? Assumindo o legado wittigniano, podemos seguir afirmando que uma lésbica é uma mulher que ama outra mulher quando este amar destrói o sujeito da ação? Ou teremos que admitir uma genealogia implícita que faz possível a negação de ser algo? Se uma se vê na necessidade de esclarecer que não é alguma coisa é por que há uma conexão silenciosa e tácita que é necessária desmentir. De que maneira opera este imaginário sobre a identidade da lésbica?
No final da década de 70, há quase 30 anos, perante um auditório perplexo Wittig concluia sua apresentação assinalando:
“...seria incorreto dizer que nós lésbicas nos casamos, fazemos amor ou vivemos com mulheres, porque o termo mulher só faz sentido nos sistemas de pensamento e nos sistemas econômicos heterossexuais. Nós lésbicas não somos mulheres...”
Foi necessário um tempo antes da frase ser acolhida, e quando já havia sido operadas mudanças na maneira de compreender e abordarmos o sujeito, foi que se tornou possivel sua inteligibilidade, o certo é que depois dos anos 90’s esta não deixa de ser citada e comentada em uma infinidade de ensaios e trabalhos acadêmicos, passando a construir uma peça chave para a teoria feminista de gênero, os estudos de gays e lésbicas e a posterior teoria queer.
Aqui mesmo na Argentina, onde se traduziu pela primeira vez em espanhol, a máxima de Wittig tem sido muito bem recebida por uma parte do movimento de lésbicas e de lésbicas feministas, assim como os estudos de gênero. Ao menos dois dos trabalhos centram seu argumento no marco do pensamento wittigniano: um de Fabiana Tron³ e o outro de Paula Viturro ⁴.
Sem dúvida Wittig e, particularmente, seu ensaio “O Pensamento Hétero”, tem sido frequentemente estudado e a perspectiva que ajudou a moldar uma estratégia discursiva desconstrutiva que ultrapassou os limites do seu próprio lugar de enunciação. É uma verdadeira pena, contudo, sua pouca produtividade no interior do próprio campo feminista, lugar onde foi possível seu nascimento. Seu destino tem tido a mesma sorte que o conceito, irmão, de heterossexualidade compulsória, condenado dentro do pragmatismo das políticas públicas e dos planos de igualdade que anulam toda a possibilidade de pensamento e praxis do rompimento com a heteronormatividade.
Com relação ao feminismo lésbico e à teoria de gênero nota-se a explosão que, junto a outros textos que seguem a mesma linha de autoras como Butler, De Lauretis, Anzaldúa, produziu seu estabelecimento. É impossível não perceber que sua recepção tem sido, sem dúvida, conflituosa e tem produzido, a minha opinião, a princípio, uma ruptura entre posicionamentos mais apegados à tradição identitária que sustenta uma parte do feminismo, e o surgimento de um minoritário porém, forte impulso revisionista da política de identidade no interior do próprio movimento e fora dele. Lamentavelmente os posicionamentos fechados a favor e contra tem impedido, ao meu entender, o desenrolar de um diálogo que permitiria valorizar devidamente as contribuições e os alcances do que foi formulado.
Embora haja um grande grupo de lésbicas feministas para quem a declaração é infeliz, ou no mínimo, incompreensível. Há um grupo minoritário, geralmete dentro ou próximo a academia, para o qual a atribuição é inquestionável.
Como de costume, minha proposta é de nos enxergarmos com a abordagem fora do lugar da oposição ou da fácil aceitação. Particularmente, acho que a perspectiva wittigniana é ousada, audaciosa, provocadora. Creio que o efeito que se consegue vai mais além que a declaração em si e se baseia sobre o olhar, sobre a própria produção discursiva do sujeito. Justamente o que se permite desconstruir são as operações de naturalização no que se refere ao binarismo gênero-desejo.
Em um trabalho anterior me detive em uma citação de Wittig para afirmá-la ao mesmo tempo que a questionava.
Nesta passagem dizia:
“...tenho voltado àquela frase revolucionária de Wittig “as lésbicas não são mulheres”, e tenho chegado a suspeita de que a mesma se constitui em uma afirmação tão libertadora quanto problemática. Por que em todo caso, é o dilema que envolve toda identidade, uma poderia perguntar-se para quem não são e em que contextos de poder e inteligibilidade? Acaso poderíamos dizer que deixar de “atuar” um gênero, um sexo – em caso de que tal coisa seja possível- implica consequentemente uma mudança na maneira como o poder nos constrange?”
Particularmente, sustento que que não há possibilidade de haver um sujeito por fora do discurso e do poder. A operação em si de ter que recorrer a uma negação para definir a lésbica a une irremediavelmente a aquilo que nega. Implica que esta só surge da oposição a sua intenção anterior de negar. A ato de negar é paradoxal por que afirma ao mesmo tempo que nega. Dizer que as lésbicas não são mulheres sinaliza desde que há uma procedencia, um lugar de partida que, ao ser negado, paradoxalmente reinstaura a demarcação de um sujeito mulher. O confirma.
O paradoxo se intitui na aceitação do enunciado. Efetivamente em quem o escuta produz perplexidade. Cada vez que a frase é pronunciada em ambientes onde ainda não foram recebidas, a primeira reação é de surpresa. A provocação de Wittig, alcança seu resultado ao provocar incômodo, estranheza, murmurios. Sua efetividade se consegue ao destruir algo que parecia ser da ordem do natural. Até este momento a lésbica sempre foi “uma mulher que ama outra mulher”. Em algum lugar a ordem binária estava garantida. O binarismo de de gênero estava intacto. A mulher parecia continuar semndo uma mulher que ama aoutra. A princípio pareceria que a identidade não era posta em risco. As lésbicas em todo caso eram duas subalternas brincando com sexo. O sistema, sem dúvida, poderia custar-lhe compreender, mas no final da ferida. Pode ainda desfrutar-la. E repare nas imagens de lésbicas que passam pela censura. A imagem da lésbica da tela, das revistas de entretenimento é realmente patética. Entediante até o cansaço. É o mais anti-erótico para as lésbicas. Sempre parece que falta ação. A imagem sinaliza a gritos a ausência de um homem, a necessidade de que apareça um desejo ativo. A lésbica do mercado está limitada no gênero que a produz e a contém. E está realmente muito mal detida.
O que se passa pela cabeça das pessoas quando se nega esta atribuição aceita e até agora inquestionável? Por que o pânico, por que a distorção? A força da frase de Wittig está em negar o que parece impossível. Todas pertencemos a um gênero (sexo), isto pareceria da ordem da atribuição. Como seria possível compreender que alguém é uma extrangeira de seu sexo (gênero). Para compreender a frase tem que se atravessar primeiramente as paredes do edifício em que habita nossa compreensão de sujeito. A frase funciona como um detonador, uma implosão ao interior da casa dos significantes hegemônicos. Estamos despidas ao ar livre: como nós olhamos, de onde. A sensação de nudez nos faz institivamente tentar nos refugiar. Nos damos conta que ao redor só há restos.
Com estes restos, no entanto, eu lhe asseguro, se tentará reconstruir o que foi perdido. Não exatamente o mesmo, mas tampouco deixa de sê-lo. Se a lésbicas não são mulheres, é por que alguma vez já foram. A fugitiva traz nos pés a terra que habitou. Traz ao novo território as sementes da casa antiga. A afiliação é o ato por meio do qual o poder nos restitui e resigna ao lugar simbólico que nos corresponde. Os afroamericanos não são africanos mas o são. Somos suas hedeiras/os. Suas filhas e filhos, seu sangue. Encarnamos a ameaça de barbárie, a herança do primitivo, o triunfo da força sobre a razão. Nós lésbicas não somos mulheres, mas somos. Somos mulheres justamente para o sistema de pensamento e o sistema econômico heterossexual onde nascemos, em que formos produzidas. A lésbica não pode deixar de encarnar a mulher inventada.
Nós lésbicas de carne e osso saímos às ruas e temos que lidar com esta operação de atribuição de identidade indo mais além da autoatribuição. Vamos para onde vamos, umas mais, umas menos, de acordo com nossos posicionamentos de classe, raça, nacionalidade, nós lésbicas voltamos uma e outra vez à matriz do gênero, estamos presas neste lugar de “mulher” ao qual somos violentamente atribuídas, todas as que assim são chamadas.
A lésbica não é uma mulher, mas, tampouco pode deixar de sê-lo. A lésbica só pode ser produzida dentro da matriz de gênero. Fora dela sua existência é impossível. Nesta matriz se forma, nela se tem produzido seu desejo abjeto. Sabemos também que seu desejo é uma anti desejo que circula como ameaça, cumpre uma função específica dentro das operações destinadas a regular a intituição da heterossexualidade.
A lésbica ao aparecer, ao se fazer visível, em algum lugar se rebela contra aquilo que se tem recomendado encarnar, o lugar da ameaça produtiva. Mas o salto ao qual nos coloca Wittig é o de negar o que parecia impossível. A insolência dá um golpe forte contra todo o previsível. Quando esta consegue constituir a lésbica em uma relegada de seu gênero, quando disse que a lésbica não é uma mulher, não consegue arrancá-la deste lugar de sentido mas consegue armar um sujeito antagônico em si. Assim pois, a lésbica desestabiliza, não só aparecendo, mas também indo de encontro ao discurso que a faz possível. A função de Wittig é criar a conciência do paradoxo no discurso. Ao declarar performativamente instituimos que agora mais que uma mulher que ama outra mulher, deixamos de ser mulher, ao mesnos, tentamos. O desejo se volta contra o próprio sujeito que o produz, e o transforma ao instalar uma diferença com o desejo intituído.
O que é uma lésbica então? A lésbica é um sujeito de ensaio, um ponto de fuga até outro lugar, uma intuição, uma bordelands, uma...estratégia? Uma identidade...de passagem?
A lésbica não é a libertação, é seu projeto. O é na medida em que ela está sujeita à autoaniquilação. Estamos dispostas? A lésbica ao deixar de ser mulher corre o risco de desaparecer.

Traduzido por Mirela Fonseca
Revisado por Paula Cordeiro


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¹ Ponencia presentada en las VIII Jornadas de Historia de las Mujeres, III Congreso Iberoamericano de Estudios de Género, Mesa Género, Sexualidades y Erotismo, Villa Giardino, Córdoba, octubre 2007.
² Wittig, Monique (1978) “La mente hetero”, discurso pronunciado en el Congreso Internacional sobre lenguaje moderno. Traducido por primera vez en español por Alejandra Sardá en:
www.lesbianasalavista.com.ar/lamentehetero.html .
³ “Che ¿vos te diste cuenta que sos una mujer?” Ponencia presentada en el Foro “Situación Legal de las Personas Trans en la Argentina”, septiembre 2003, Buenos Aires.
⁴ “Ficciones de hembras” Ponencia presentada en el Foro “Cuerpo Ineludibles: un diálogo a partir de las sexualidades en América Latina” realizado durante los días 4,5 y 6 de septiembre del 2003 y publicado en un libro homónimo por Josefina Fernandez, Mónica D´Uva y Paula Viturro (comps). Buenos Aires, Ediciones Ají de Pollo, 2004.